Juventudes, Emergência Climática e a Casa Comum

Por Suzana Moreira*

 

Não sei se eu estou pirando
Ou se as coisas estão melhorando
Não sei se eu vou ter algum dinheiro
Ou se eu só vou cantar no chuveiro
Estou no colo da mãe natureza
Ela toma conta da minha cabeça
É que eu sei que não adianta mesmo a gente chorar
A mamãe não dá sobremesa.
(“Mamãe Natureza”, Rita Lee)

 

A emergência multifacetada da crise climática

Todos os anos e, mais recentemente, todos os meses, vemos novos estudos e relatórios que mostram a gravidade das alterações climáticas e da degradação ambiental. Se não trabalharmos para mudar o contexto atual, em menos de uma década o aquecimento global será irreversível. Cuidar da ecologia implica cuidar do humano, porque o “ambiente humano e o ambiente natural degradam-se em conjunto; e não podemos enfrentar adequadamente a degradação ambiental se não prestarmos atenção às causas que têm a ver com a degradação humana e social. De fato, a deterioração do meio ambiente e a da sociedade afetam de modo especial os mais frágeis do planeta” (Laudato Si’, n. 48). Cuidar do bem viver, da saúde e da ecologia acaba sendo um imperativo moral. 

Contudo, uma perspectiva ecológica integral sobre a saúde não é só pensar em terapia para quem sofre de ansiedade e trauma com desastres ambientais e climáticos, é também garantir qualidade de vida, vida digna para todas as pessoas. Não é só segurança alimentar, isso é o mínimo. É uma alimentação saudável com alimentos agroecológicos. Não é só direitos trabalhistas, isso é o mínimo. É a garantia do direito ao descanso, equidade no acesso a atividades físicas, eventos culturais, arte, acessibilidade dos transportes públicos. Não é só saneamento básico e gestão de resíduos, isso é o mínimo. É priorizar a melhoria dos serviços públicos em comunidades e regiões mais vulnerabilizadas, é tornar acessíveis as formações sobre lixo zero, compostagem, e acesso financeiro a produtos sustentáveis. Não é só punir as empresas mineradoras e petrolíferas criminosas, isso é o mínimo. É fazer uma transição energética urgente que inclua a classe trabalhadora no planejamento estratégico de transição para que ninguém fique desempregado, nem seja culpado por aquilo que é da responsabilidade das áreas executivas e diretorias multimilionárias e bilionárias. 

Lutar por uma sociedade que viva o bem viver, a saúde e a ecologia integral é lutar pela subversão do sistema capitalista neoliberal que nos obriga a depender do agronegócio e das indústrias de combustíveis fósseis, que nos obriga a viver para trabalhar, que nos cega e normaliza condições precárias trabalhistas e de serviços públicos, que reforça a lógica da meritocracia, que não reconhece a desigualdade de contextos e oportunidades. E mesmo diante de tão diversas e complexas crises, “sabemos que as coisas podem mudar” (Laudato Si’ n. 13). 

Para uma crise de múltiplas facetas, é necessária uma abordagem multifacetada, reconhecendo as particularidades locais dos desafios ecológicos, que consistem em uma realidade global. É necessário não apenas uma mudança de costumes e paradigmas para o desenvolvimento, mas também uma mudança de coração e mente. É necessário reconhecer o impacto da ação humana desenfreada, que leva as mesmas indústrias de sempre a continuarem investindo em seus projetos de exploração da Terra e lucrando com o marketing da desinformação e do negacionismo. A crise socioambiental e climática é uma crise moral, uma crise humana das nossas escolhas. Precisamos criticar e apontar os erros do tipo de civilização que construímos e o antropocentrismo, identificando a crise do capital como causa, para assim superar os modelos de desenvolvimento insustentável e desrespeitoso com a criação.

A emergência climática é uma emergência espiritual, e as consequências da lentidão das respostas concretas e audaciosas para podermos frear as consequências do colapso climático e ambiental caem — e continuarão caindo — sobre os nossos ombros: nós, pessoas jovens, crianças e aquelas que ainda estão por vir neste planeta. Na Encíclica Laudato Si’, o Papa Francisco é enfático na preocupação com os mais jovens “Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer?” (n. 160). Mais: que tipo de mundo já estamos sendo para nós que estamos crescendo em meio à crise?

Ao mesmo tempo que vivemos uma emergência espiritual, moral e social, vivemos também em tempos de instabilidade intergeracional. Por um lado, há uma adultização das crianças e, por outro, uma infantilização dos jovens. O abismo criado entre as gerações parece aumentar cada vez mais: jovens sem confiar nos mais velhos; os mais velhos com ciúmes dos jovens, e as crianças sem paciência para ouvir sequer os jovens que já são vistos como velhos. Somos desafiados/as de todos os lados contra a luta pela justiça climática e intergeracional, diante de tantos discursos manipuladores e polarizadores da radicalização extrema. Tudo isto combinado com o ritmo desenfreado da sociedade capitalista, que afeta especialmente as pessoas mais jovens, como afirma Rocheli Koralewski, cientista social: “A aceleração do cotidiano, denunciada também na Laudato Si’ (n. 225), faz com que jovens vivam numa urgência contínua, elemento que afeta diretamente a relação com o futuro e com a construção de um projeto de vida. Em um mundo que corre rápido demais, ‘fazer as pazes com o tempo’ se torna uma tarefa política: é preciso recuperar o ritmo da reflexão, o valor da pausa e a possibilidade de amadurecer o futuro”. 

 

Mas afinal de contas, o que é ser jovem? 

A categoria de juventude varia dependendo de qual referencial se usa. Para a ONU, por exemplo, o grupo etário é composto por pessoas entre  15 e 24 anos de idade. Já para a legislação brasileira, jovens são pessoas entre 15 e 29 anos. Porém, nos espaços sociais e eclesiais, não importa muito a idade, pois, se você tem cara de ser mais novo do que os mais velhos, vão te tratar como jovem. Somos uma geração que ao mesmo tempo que faz parte da classe trabalhadora, ainda não somos vistos como responsáveis o suficiente para ter nossas vozes representadas como iguais nas mesas de decisão política e eclesial. Além disso, sofremos com os atravessamentos das mudanças climáticas na nossa vida cotidiana, mudanças que custam, inclusive, a nossa perspectiva de futuro. Ao mesmo tempo que herdamos as teologias, filosofias, teorias e práticas da libertação, herdamos também a precarização extrema da vida, as demandas do trabalho acima de tudo, raramente entregando o mínimo para nossa dignidade de vida, muito menos vida em abundância. Herdamos um mundo mais polarizado do que nunca. Herdamos um mundo em colapso ambiental, em ebulição. 

Mas também herdamos o privilégio de ter acesso a uma educação nas escolas que inclui os dados mais atualizados sobre as questões climáticas e ambientais, mesmo que o acesso a esses dados e livros didáticos ainda não se dê de forma equitativa, devido às falhas estruturais da injustiça social no nosso país. A capacidade das juventudes de acessarem informações através da internet e das redes sociais também proporciona uma faca de dois gumes: por um lado, a desinformação e sobrecarga de informações; por outro, o acesso a fontes confiáveis e dados atualizados precisos sobre a emergência climática e suas consequências no mundo de hoje. Tudo isso é o que ajuda a mobilizar diversos movimentos e ONGs liderados pelas juventudes, trazendo uma camada ética de coerência, seja no cristianismo, seja no ativismo, onde as pessoas jovens não só se informam, como atuam de acordo e ajudam a educar outras pessoas também. Rocheli nos mostra que

Apesar dos discursos que desqualificam a nossa atuação (“jovens não querem nada”, “jovens não se interessam”, “jovens não têm a experiência necessária), os dados mostram o contrário: boa parte da juventude brasileira reconhece as desigualdades produzidas pela crise climática, já mudou hábitos, participa da vida política e defende transformações estruturais (Juma, 2024). Essa disposição revela que as juventudes não são apenas vítimas da crise, mas protagonistas de processos decisórios que atravessam gerações. A perspectiva da justiça intergeracional reforça essa responsabilidade compartilhada: o direito dos jovens a um meio ambiente equilibrado implica também o dever coletivo de preservar as condições de vida para o futuro.

O perigo das generalizações e da mania de chamar uma cota jovem, sem mudar as estruturas de como as decisões são feitas e como os espaços de decisão são construídos, perpetua a deslegitimação das juventudes que têm atuado insistentemente pela justiça climática. São juventudes atentas aos sinais dos tempos em que vivem, que sabem escutar a voz dos mais velhos  que alertam sobre a emergência climática, sabem aprender com os erros dos mais velhos que não agiram ou não agem pela justiça climática, e sabem construir vínculos de afeto e luta intergeracional. É uma sabedoria jovem, sinal de quem sabe escutar a força da ancestralidade ao longo das gerações e através da própria Terra. Jovens que conhecem sua própria história e sabem fazer memória — e isso serve também como alimento espiritual para a luta de resistência.

 

A casa comum de todas as gerações

São diversas as iniciativas cristãs que trabalham pela justiça socioambiental ao redor do mundo. No Brasil, para destacar algumas, temos o Movimento Laudato Si‘, Nós na Criação, Renovar Nosso Mundo, Fé no Clima (ISER) e tantas outras iniciativas ecumênicas e interfé por justiça social, racial, de gêneros, assim como projetos socioambientais junto ao Conselho Mundial de Igrejas, através do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, e projetos junto ao Conselho Nacional de Bispos do Brasil, como Pastorais de Ecologia Integral, Igrejas e Mineração, Pastoral da Terra, e o Conselho Indigenista Missionário. Em todas essas iniciativas, a presença das juventudes é de chamar a atenção, e ainda mais em um lugar de diálogo intergeracional que se dá naturalmente, pois é a missão pela justiça que une as pessoas na luta.

Garantir a preservação e o cuidado do planeta é também garantir a preservação e o cuidado das pessoas, aquelas que estão vivas e as que ainda estão por vir. Um planeta saudável é condição para que pessoas saudáveis existam e possam existir. Ninguém se salva sozinho e toda a criação geme e espera pela salvação em comunidade, pela promessa de vida em abundância para todo o cosmos. Deveríamos nos sentir interpelados por esta vida em abundância, contemplando a beleza da interligação cósmica à qual pertencemos. A contemplação nos ajuda a recuperar a admiração e o amor pela beleza da criação, assim como reconhecer as diversas formas como a estamos ferindo. “O melhor antídoto contra este mau uso da nossa casa comum é a contemplação” (Papa Francisco, 2020). Quanto mais contemplamos, mais aprendemos a amar. Quanto mais amamos, mais buscamos cuidar. Quanto mais cuidamos, mais nos damos conta de como ainda não cuidamos bem o suficiente. 

Cuidar da criação é condição para poder cuidar da pessoa de forma integral. A utopia escatológica de justiça e de paz, que tentamos construir na nossa ação pastoral como fidelidade à missão de Cristo, precisa ser desenvolvida com especial atenção à estreita relação entre a dignidade humana e o cuidado da criação. O processo de sensibilização para as vulnerabilidades humanas leva-nos a reconhecer também as vulnerabilidades da criação. Falar sobre bem viver, saúde e ecologia integral, nos dias de hoje, precisa ser falar sobre ecojustiça em perspectiva de justiça racial, social e de gêneros. A questão ecológica gera um adoecimento mental que vai muito além da dimensão ambiental. Precisamos recuperar nossa compreensão de que pertencemos a uma comunidade cósmica. É preciso curar a ruptura causada pela visão de mundo antropocêntrica e androcêntrica. 

Habitamos uma casa comum, da qual não somos proprietários, mas coabitantes com diversas outras criaturas e ecossistemas. Trabalhar pela conscientização ecológica e cultivar a cultura do cuidado é uma questão de ética, e isso deve ser feito reconhecendo a dignidade mútua entre as diversas gerações. Todas as pessoas podem aprender com a força profética das juventudes que, mesmo com uma perspectiva de futuro sombrio, carregando o fardo do trabalho, e se mobilizando pela luta socioambiental e climática, ainda assim também encontram tempo para viver uma luta encarnada, cantada e encantada, nunca deixando a profecia cair — nem o esperançar. 

 

Para refletir nas comunidades (CEBs, grupos de jovens, círculos bíblicos e outros espaços):

    1. Como os jovens na sua comunidade têm sido afetados pela crise da emergência climática?
    2. Como tem sido construídos na sua comunidade os espaços de partilha e decisão no que diz respeito ao cuidado com a casa comum?

 

Referências

PAPA FRANCISCO. Laudato Si’. Carta Encíclica sobre o cuidado da casa comum. Libreria Editrice Vaticana. 24 de maio de 2015. Disponível em: <https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html>. Acesso em 25 nov. 2025.

KORALEWSKI, Rocheli. “Juventudes e a crise socioambiental: caminhos para fazer as pazes com o tempo” Anchietanum Magis Brasil. <https://anchietanum.magisbrasil.org.br/juventudes-crise-socioambiental-futuro-justica-intergeracional/>  Acesso em 25 nov. 2025

 

 

* Suzana Moreira teóloga, ativista socioambiental, educadora popular. Atua junto ao Movimento Laudato Si’ em nível nacional e internacional, e faz parte da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT+ e do MEL (Movimento de Juventudes e Espiritualidades Libertadoras).

 

Este texto faz parte do Texto-Base do 16º Intereclesial das CEBs e foi gentilmente cedido pela equipe da Ampliada Nacional das CEBs. O 16º Encontro Intereclesial das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) será realizado de 20 a 24 de julho de 2027 na Diocese de Cachoeiro de Itapemirim (ES) – Regional Leste 3 da CNBB. Terá o Tema: “CEBs: caminhando com as juventudes na alegria do Evangelho a serviço do Reino” e o Lema: “Levanta-te e resplandece, pois chegou a tua luz” (Is 60,1).

 

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