Por Débora Cristina Giehl[1]
Todas as vezes que abri as redes sociais ou os sites de notícias este mês de março, estava lá: a morte de uma mulher vítima de feminicídio. Aqui no estado em que moro, de janeiro a março deste ano, são mais de 20 mulheres – um aumento de 53% em relação ao mesmo período do ano anterior (IHU[2], 2026). No Brasil, segundo o Mapa Nacional da Violência de Gênero – do Senado Federal, em 2025, foram 4 mulheres mortas a cada dia[3]. Contudo, um levantamento da Universidade Estadual de Londrina apontou que pode haver cerca de 40% mais casos dos que os que estão registrados nos sistemas de segurança dos estados[4]. De todos esses casos, apenas 5% dos agressores eram desconhecidos da vítima: o atual companheiro, o ex-companheiro, ou um familiar cometeram o crime. Esse apontamento foi divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em nota técnica sobre o Retrato dos Feminicídios no Brasil (2021-2025)[5]. Ainda que a nota técnica aponte a faixa etária de 30 a 39 anos como maior percentual entre as vítimas – 28,3%, se considerarmos adolescentes e jovens de 12 a 29 anos, o percentual de 33,2% nos indica que a violência de gênero e o feminicídio não como um evento isolado, mas que interdita o futuro de meninas e jovens mulheres mesmo antes que elas possam traçar seus projetos de vida.
Mesmo que os números sejam importantes para a compreensão da realidade e fundamentais na construção de estratégias de proteção e segurança nas políticas de gênero, é fundamental reconhecer que cada número é uma mulher real: com nome e sobrenome, carregando as marcas da sua identidade, que trabalha, estuda, sonha. Todas elas, todas nós, contudo, convivemos – e às vezes nos habituamos – com o ciclo da violência de gênero[6]. Nos habituamos também ao medo: humilhações, insultos, vigilância digital, empurrões, sacudidas, práticas desconfortáveis de sexo, controle financeiro e de bens, interrupções de falas, ameaças no trabalho, relativização de denúncias, realização de procedimentos de saúde sem consentimento, publicidade que objetificam nossos corpos, discursos moralizantes da fé… Esses são apenas alguns exemplos das violências física, psicológica, sexual, patrimonial, moral, política, institucional, obstétrica, simbólica, entre outras, que uma mulher está sujeita por ser mulher. O risco de sofrer essas violências triplica quando acrescidos fatores como raça, etnia, classe e orientação sexual, por exemplo. Uma mulher negra tem mais chances de sofrer violência obstétrica (Nascer no Brasil 2 – Fiocruz[7]); uma mulher estrangeira que busca por proteção em delegacias pode ser ignorada em relação às suas demandas linguísticas; uma mulher pobre de periferia pode permanecer em um lar violento devido à falta de recursos e ausência de redes de apoio – como creches, por exemplo.
A familiaridade com o agressor também indica o ciclo de violência ao qual somos expostas desde muito cedo. bell hooks, em seu livro “Comunhão: a busca das mulheres pelo amor”[8], descreve como nossa noção de amor é ensinada a meninas desde cedo para que busquem o amor no externo, pois o amor está além de nossa capacidade como mulheres. Por isso, “não podemos determinar nosso próprio valor. Nosso valor, nossa autoestima e certeza de poder ou não ser amadas são sempre determinados por outros” (bell hooks, 2024, p. 79). Esperamos, assim, sermos dignas do amor dos outros e, assim, somos ensinadas que não somos nada sem um homem que atuará também na aprovação patriarcal de nossas vidas.
Vemos, então, adolescentes e jovens encorajadas em anseios e aprovação masculina e, mesmo que em relacionamento homoafetivo, a naturalização dos parâmetros patriarcais de relacionamento figura na cultura patriarcal (bell hooks, 2024). A ideia de dominação e sujeição das mulheres é reforçada entre os meninos, que também aprendem: a esconder seus sentimentos; a terem não uma, mas várias parceiras como sinônimo de virilidade; que mulheres são dissimuladas e que um “não” é um convite à insistência; que há uma divisão óbvia nos papéis domésticos e que as mulheres são responsáveis pelas tarefas da casa; entre outros argumentos. É aí que também movimentos como o “red pill” reforçam e proporcionam novas premissas para a justificação das violências contra as mulheres. Esses grupos ultraconservadores e misóginos ensinam que as mulheres são seres inferiores biologicamente e que homens constituem uma “elite genética”, por isso, a supremacia masculina – e consequentemente, a violência de gênero – seria justificada.
Esses discursos chocam pela brutalidade e influência entre as novas gerações. Há uma ideia de guerra, de que homens – e a masculinidade – estariam sob ataque e que legislações, como a Lei Maria da Penha[9], devem ser enfrentadas e dissolvidas. Mas esses grupos não atuam apenas com lobby da decisão pública, eles estimulam a criação de uma nova mentalidade entre jovens e ideias machistas, racistas, homofóbicos, gordofóbicos, xenófobos, capacitistas etc. são apreendidas e fundamentam a violência. Esta é para mim a principal diferença desses grupos, uma vez que seus argumentos têm como objetivo justificar a violência e a supremacia masculina. Esses grupos – e seus fundadores – são, portanto, conscientes de sua ação. E cientes de sua ação devem ser responsabilizados por tal.
Ainda que nos custe emocionalmente, gostaria de lembrar – embora seja impossível não estar ainda vivo em nossas mentes – o estupro coletivo da jovem de 17 anos no Rio de Janeiro. A premeditação do crime e espetacularização com imagens em redes sociais apontam para uma engrenagem perigosa do ódio contra as meninas e mulheres, que não apenas fere, mas desumaniza e traumatiza. O planejamento indica que a violência de gênero não é um impulso impensado e reativo, mas configura-se como estrutura social de domínio dos corpos das mulheres. A jovem vítima teve apoio para denunciar, mas muitas outras meninas e mulheres não encontram serviços do Estado em suas comunidades ou são revitimadas pelo medo da denúncia que pode se tornar em um novo ciclo de violência.
Essa omissão é também estatal, que atua ainda pela conivência com as violências. Enquanto recebíamos notícias sobre o estupro no Rio de Janeiro, no mesmo período, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais absolveu um homem de 35 anos por estupro de uma menina de 12 anos, sob alegação de “vínculo afetivo consensual”. Aqui recordo também da juíza de Santa Catarina que negou o serviço de aborto legal a uma menina de 11 anos grávida de estupro. Em audiência, a magistrada tentou de todas as maneiras convencer a mãe da menina e a vítima a manterem a gestação. “Tu suportarias mais um pouquinho?”[10] é uma das faces da institucionalização do abuso por parte do Estado, que valida que a vida de crianças e adolescentes – ainda que protegidas pelo ECA e outras legislações – são passíveis de interpretação patriarcal.
Mesmo que todas essas situações e dados apontem para a crueldade da violência contra as mulheres, é preciso que encontremos forças para deter as violações e desestruturar o patriarcado em nossas organizações e coletivos. Para mim, abrir caminhos – nem que seja com foice e enxadas – é o único passo possível. A vida de meninas e jovens mulheres que estão em nossos coletivos e instituições depende da ação que tomaremos ainda este ano. O Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio[11] é uma primeira afirmação dos Três Poderes – executivo, legislativo e judiciário – para a garantia da vida de mulheres e meninas. Mas não basta para os nossos movimentos e coletivos. Nossa responsabilidade com a vida exige de nós um olhar profundo em nossas organizações. O primeiro movimento é nos olharmos realmente e percebermos o que precisamos enfrentar em nossos machismos estruturantes. Em paralelo, traçarmos metas, criando, ampliando e retomando projetos para a defesa da vida de nossas adolescentes e jovens mulheres. Projetos reais, concretos, que priorizem o enfrentamento aos discursos de ódio às mulheres, que pensem novas masculinidades, que voltem a atenção ao entendimento dos ciclos de violência contra mulher, que estimulem renda e acesso às jovens em situação de violência, que desmistificam relações românticas e abrem para o entendimento das identidades e amor-próprio são apenas alguns exemplos de ações que devem urgentemente serem encaradas em nossas organizações.
Além disso, pressionar que outras organizações – como igrejas, escolas e universidades – assumam esse compromisso é fundamental para ampliarmos as redes de proteção. Sonho junto com tantas outras mulheres sobre a possibilidade de a Igreja Católica lançar a próxima Campanha da Fraternidade[12] sobre o enfrentamento aos ciclos da violência contra as mulheres.
Os silêncios precisam ser rompidos, assim como o luto por tantas mulheres vítimas de feminicídio deve se transformar em luta coletiva, na revisão de nossas estruturas para abrir caminhos que garantam novos horizontes às adolescentes e jovens mulheres de nossos coletivos. Que nenhuma vida mais seja interrompida pelo medo! Que possamos desnaturalizar o abuso, responsabilizando os coletivos e grupos e as esferas de poder de suas ações e ideias misóginas, sem retroceder nos direitos e legislações já conquistados. Abrir caminhos não é um ideal poético e simbólico, é uma necessidade concreta para a sobrevivência, é um ato que deve ser inegociável em nossas ações em rede.
Pela vida das mulheres, nenhum passo atrás!
[1] Comunicadora, pesquisadora e ativista de Católicas pelo Direito de Decidir – dcgiehl@gmail.com
[2] Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/663060-feminicidios-no-rs-tem-alta-de-53-em-relacao-ao-ano-passado Acesso 20/03/2026
[3] Disponível em: https://www12.senado.leg.br/institucional/procuradoria/noticias/mapa-nacional-da-violencia-de-genero-aponta-alta-nos-casos-de-feminicidio Acesso 20/03/2026
[4] Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-03/numero-de-vitimas-de-feminicidio-supera-em-38-registros-oficiais Acesso 20/03/2026
[5] Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2026/03/nota-tecnica-dia-mulher-2026.pdf Acesso em 21/03/2025
[6] Materiais para auxiliar a discussão:
https://pj.org.br/category/atividades/campanhas/campanha-mulheres
https://pj.org.br/tag/campanha-nacional-de-enfrentamento-aos-ciclos-de-violencia-contra-a-mulher/ https://pj.org.br/16-dias-de-ativismo-2020/
[7] Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2024/07/08/maes-negras-e-com-baixa-escolaridade-sao-maiores-vitimas-em-casos-de-violencia-obstetrica-diz-pesquisa-da-fiocruz.ghtml
[8] hooks, bell. Comunhão: a busca das mulheres pelo amor. São Paulo: Elefante, 2024. 288p. Tradução Julia Dantas.
[9] Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm
[10] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=VJK1bZxAu7Y&t=31s
[11] Disponível em: https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/central-de-conteudo/textos/pacto-brasil-entre-os-tres-poderes-para-enfrentamento-do-feminicidio
[12] Inspirada no post de Tábata Tesser no Instagram


